Passei pela transição capilar sem saber o que eu tava fazendo

Eu sou filha de uma branca com um negro e, desde pequena, meu cabelo crespo foi um "incômodo" pras pessoas em volta da minha família. Eu lembro que comecei a usar produtos químicos com 10 ou 11 anos porque eu não aguentava os comentários na escola e em algumas festas de amigos da família. Eles me criticavam e me atacavam por eu ter um cabelo tão crespo e uma mãe do cabelo liso: eu era criança e cresci achando que era errado ter um cabelo como o meu tendo uma mãe como a minha.

Eu confesso que fiquei um pouco fanática em alisar cabelo. Já cheguei a gastar quase 700 reais por mês com produtos de cabelo, alisamento, escovas, etc... Eu fui crescendo no meio de pessoas que "adoravam" meu cabelo alisado, por ele "estar em dia", porque eu não deixava a raiz aparecer de jeito nenhum e porque ele já tava enorme, abaixo dos seios.

Foi isso até meus 21 anos. Era época de ano novo, eu não consegui marcar salão pra alisar o cabelo, tive que sair de chapinha e não preciso falar muito, né? Transpirei e minha raiz apareceu. Eu entrei em pânico e me vi desesperada pra usar até um chapéu que fosse, mas daí acabei esquecendo no meio da festa e ficou por isso mesmo. Quase dois meses depois resolvi ir ao salão alisar o cabelo, sentei na cadeira do meu cabeleireiro e, me olhando no espelho, me deu uma vontade louca de cortar o cabelo (odeio desde sempre cortar os cabelos kkkk). Me levantei, pedi desculpas e fui pra casa.

Fui até a casa de uma amiga e disse que tava nervosa com as pontas do meu cabelo, ela disse "Vi, vamos cortar?". Eu juro, foi MUITO difícil dela me convencer. Eu chorei, mas disse "amiga, corta acima do ombro". Ela cortou em casa mesmo e eu AMEI me conhecer de cabelo curto, mas quando eu fiz escova e chapinha me senti muito diferente. No fim de semana seguinte liguei pro salão e marquei um horário. Chegando lá, pedi pro meu cabeleireiro cortar meu cabelo até onde não tinha química. Do nada, na cara e na coragem.

Eu NUNCA tinha ouvido falar em Big Chop, em empoderamento, em transição, em nada que envolva o mundo do cabelo natural da mulher negra. Foi apenas uma vontade de aprender com a minha raiz e cansaço de ficar presa ao mundo do alisamento. Ele cortava mais curtinho e eu chorava sentada na cadeira, olhando pelo espelho e meio que me arrependendo. Meu cabelo natural tava só com quatro dedos. Cheguei em casa e foi um "choque" pra minha família. Depois eu ouvi altos comentários que me deprimiram de verdade, acabaram com o meu ego e eu entrei num pequeno surto. Não queria sair pra rua, quando saia colocava algo no cabelo, chorei MUITO e me "arrependi" MUITO. Se passaram alguns dias e eu resolvi ir a uma festa dos meus amigos. Fiquei muito sem jeito porque não sabia o que fazer no cabelo, mas mesmo assim fui: com toda a vergonha e preparada pra receber mais críticas.

Pra minha surpresa e felicidade, meus amigos "se assustaram" de uma forma positiva, me elogiaram a festa inteira e me deixaram muito feliz. Ao chegar em casa eu tava tão bem que, parada na frente do espelho e mexendo no meu cabelo, resolvi me aceitar, me amar com o cabelo natural e curto mesmo. Fui tratando como eu sabia e vendo meu cabelo crescer.

No começo na minha transição confesso que queria colocar cabelo, tranças, qualquer coisa que me desse comprimento, mas prometi pra mim mesma que ia deixar o poder do meu cabelo aparecer normalmente, que ia deixar meu black crescer do jeito que ele quisesse. Com o poder do meu black, aprendi a palavra EMPODERAMENTO na marra, sozinha e hoje tenho muito orgulho do meu cabelo, da minha cor, das minhas raízes.

Eu sempre digo que a minha liberdade surgiu com a liberdade capilar. Hoje eu tô indo pra um ano e meio de transição, meu cabelo tá cada dia mais LINDO, me dando cada dia mais poder e eu estou/sou muito orgulhosa do que eu me tornei através da minha transição.

Viviane Rezende (@srarobyn_)

23 anos, Rio de Janeiro.

Publicado em: Terça-feira 31 de maio de 2016 - 15h07

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